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DISCURSO PELO CENTENÁRIO DO SANTOS FUTEBOL CLUBE

Publicado em 30/04/2012, por Telma de Souza.

Aproximadamente 40 mil dias. Cem anos de existência, e o mundo reverencia o clube com a história mais bonita do futebol brasileiro, quiçá mundial. Criado em meados do Século 19 na cinzenta Inglaterra, o futebol só ganhou cor e graça quando conheceu o nosso glorioso Santos Futebol Clube. E essas cores são apenas duas: o preto da nobreza e o branco da paz. Há 100 anos, quando os pioneiros Argemiro de Souza, Mário Ferraz e Raymundo Marques fundaram um clube de futebol, na antiga Rua do Rosário, no Centro de Santos, teriam ideia da contribuição que estavam dando ao esporte brasileiro?

Ninguém, nunca, poderá saber. Hoje, nós sabemos – e comemoramos. Mas o fato é que o mais ilustre e onipresente filho da nossa aprazível Santos é eterno. A cidade é terra de gigantes, só para não matarmos de inveja nosso porto, também centenário.

Esses 100 anos iniciais são apenas o primeiro capítulo de uma história que tem tudo para ganhar páginas cada dia mais iluminadas e escritas com letras douradas. Chegar aos 100 anos com sangue e futebol de menino, com certeza, não é para qualquer um.

De Feitiço e Araken Patuska a Neymar e Ganso, passando por um tal Edson Arantes do Nascimento, o Santos se fez eterno. O Rei merece um capítulo a parte em qualquer menção ao Santos Futebol Clube, quando não longas e longas páginas de suor, futebol-arte e magia.

Mas o Santos voou tão alto que, se conseguíssemos juntar todos os nossos mais de 5 milhões  de torcedores, a sobreloja da antiga Padaria Suíssa, que serviu de manjedoura para o deus do futebol que nasceu na noite de 14 de abril de 1912, seria pequena demais. Ou melhor: nem mesmo toda a cidade de Santos, hoje com pouco mais de 425 mil habitantes, teria espaço físico para esta legião.

O Santos cresceu. Conquistou o Brasil nove vezes, com oito Brasileiros e uma Copa do Brasil. Ganhou o mundo (duas vezes, diga-se de passagem). Foi proclamado o Maior do Século 20 nas Américas (já conquistadas três vezes) pela entidade maior do futebol. Mais que isso: mostrou que craque, se faz em casa, na nossa casa, a Vila Belmiro, a mais famosa. Mais recentemente, ensinou que lugar de talento brasileiro é no Brasil, acabando com o sistema extrativista que durante tantas décadas fez do nosso país uma colônia das equipes europeias, que aqui garimpavam jovens craques adquiridos a preços irrisórios.

Foi o primeiro clube do globo terrestre a atingir a marca de 10 mil gols, em 1998, ainda na flor de seus 84 anos. Parou guerras. Duas. Provou que os homens são, sim, iguais, e que a cor da pele não é, nem nunca foi, diferencial ou empecilho para definir quem é nobre e gênio.

É, talvez, o clube que mais ganhou homônimos no mundo, tamanha é a admiração que é capaz de despertar. Hoje temos Santos no México, África, Angola, Burkina Fasso, Irlanda do Norte, Guiana, e muitos outros, certamente. Fora os times de futebol de botão, vídeo game, de várzea, enfim, o poder de dispersão e penetração da instituição Santos é incomensurável.  

Nossos plantéis sempre foram variados, diferenciados, diversificados, de talentos mil. Meninos da Vila tivemos três, quatro, cinco gerações... algumas menos, outras mais vitoriosas. A visibilidade recai sobre a turma de Juari, Pita e companhia. Clodoaldo, nosso grande volante. Carlos Alberto Torres, o Capita, que levantou nossa terceira Jules Rimet, vestiu o manto branco sagrado. Robinho e Diego, Giovanni, Jameli e Camanducaia, este o autor daquele gol que nos daria mais um Brasileirão, o de 1995. São muitos. Infindáveis nossos ídolos.

Devemos, ainda, uma menção especial ao grande Luís Alonso Peres, o maestro daquele que até hoje é considerado o maior esquadrão da história mundial. E olha que tivemos muitos que merecem destaque. Coincidência ou não, este é mais um grande Lula.

Reverenciamos o Rei. Explodimos com o Canhão da Vila. Vibramos com as Testemunhas de Giovanni. Pedalamos com o menino de canelas finas. Brincamos de roda com os Meninos da Vila. Saltamos junto com a Muralha. Ouvimos o canto das Sereias. E ainda vamos repetir façanhas como essas muitas e muitas vezes. Sempre com técnica e disciplina. E dando sangue com amor. Pela bandeira que ensina lutar com fé e com ardor.

Fonte: Telma de Souza