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DISCURSO PELOS 90 ANOS DO MAESTRO GILBERTO MENDES

Publicado em 16/05/2012, por Telma de Souza.

Sem ele, a cultura brasileira não seria a mesma. No limiar da Primavera de 1922, a fértil Santos gerava mais um de seus brilhantes rebentos. Há 90 anos, Gilberto Ambrósio Garcia Mendes estreava nos palcos da vida. Palco este onde surgiu para brilhar. Ele próprio costuma classificar sua obra como música de vanguarda erudita, um gênero pouco divulgado pela grande mídia, mas que goza de grande prestígio em altos círculos intelectuais. Reconhecidamente um dos maiores compositores do Brasil - para alguns o maior desde Heitor Villa-Lobos -, conta com mais de 200 obras em seu extenso e rico currículo.

Doutor pela Universidade de São Paulo, jornalista, músico e compositor de renome internacional, Gilberto Mendes iniciou seus estudos aos 18 anos no Conservatório Musical de Santos. Praticamente autoditada em composição, frequentou o renomado curso de Verão de Música Nova em Darmstadt , na Alemanha, na década de 1960. A esta altura, Gilberto Mendes já pavimentara o caminho que o levou a ser conhecido como um dos pioneiros da música experimental aleatória e do teatro musical no Brasil.

Em 1961, portanto, há 51 anos, criou, com o colega compositor Willy Corrêa de Oliveira, além do Maestro alemão Klaus Dieter Wolf, aquele que certamente será reconhecido, mesmo com o passar dos séculos, como um dos maiores legados culturais de Santos: a Sociedade Madrigal Ars Viva, que mantém um dos mais tradicionais corais do Brasil. Gilberto Mendes é também um dos signatários do Manifesto Música Nova, publicado pela revista de arte de vanguarda “Invenção”, de 1963.

A trajetória do maestro santista é tão rica e diversificada a ponto de verbetes com seu nome constarem das principais enciclopédias e dicionários mundiais, como o inglês Grove, o alemão Rieman, o norte-americano Dictionary of Contemporary Music, entre inúmeros outros.

Sua obra já foi tocada nos cinco continentes, principalmente na Europa e Estados Unidos. Destacam-se, “Santos Football Music”, "Beba Coca-Cola" (para corais) e o “Concerto para Piano e Orquestra” (para orquestras); “Saudades do Parque Balneário Hotel”, e "Vila Socó Meu Amor" (para grupos instrumentais), além de inúmeras outras, incluindo diversas peças para piano e canções.

No Brasil, recebeu, entre outros, o Prêmio Carlos Gomes, do Governo do Estado de São Paulo, e foi indicado para o Primeiro Prêmio Multicultural do jornal "O Estado de São Paulo". Em cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília, no ano de 2004, Gilberto Mendes recebeu a insígnia e diploma de sua admissão na Ordem do Mérito Cultural, na classe de comendador, do Ministério da Cultura, das mãos do então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Como se já não bastasse, o maestro é membro honorário da Academia Brasileira de Música e do Colégio de Compositores Latinoamericanos de Música de Arte, com sede no México.

A arte tem facetas mil e mil facetas tem a arte. O nosso homenageado explodiu na sétima arte. No cinema, sua vida foi retratada em "A odisseia Musical de Gilberto Mendes". A obra, dirigida por seu filho Carlos, recebeu as melhores críticas dos mais variados veículos de comunicação do Brtasil. Em "O Estado de São Paulo" foi escrito:  "Trabalho delicado e muito, muito agradável de se ver (e ouvir)!". "A Folha de São Paulo" disse: "É algo que se digere com incrível apetite". "O Globo" foi mais além: "Os registros são igualmentes acachapantes para leigos e conhecedores".

Como se vê, motivos e láureas para justificar essa homenagem do povo paulista, aqui, nesta noite, não faltam. Ter a oportunidade de celebrar a vida por intermédio da entrada do genial Gilberto Mendes em sua nona década de existência não tem preço. Para fugir do convencional, aplaudamos, hoje, não a obra, mas o homem. Parabéns. E obrigado, maestro Gilberto Mendes.

Telma de Souza – Deputada estadual, sendo 4ª Secretária, Procuradora Especial da Mulher e vice-líder da bancada do PT na Assembleia Legislativa. É também ex-prefeita de Santos e ex-deputada federal por quatro mandatos

 

Fonte: Telma de Souza