Artigos

DISCURSO PELOS 25 ANOS DA FUNDAÇÃO PINACOTECA BENEDICTO CALIXTO

Publicado em 01/06/2012, por Telma de Souza.

Quem disse que a casa branca mais famosa domundo fica em Washington? Santista que é santista – e comigo não poderia serdiferente – admira, mesmo, é o nosso Casarão Branco da praia, uma pérolacravada na selva de concreto em plena orla. Em tempos de espigões a brotar danoite para o dia no horizonte de Santos, sinto-me orgulhosa de, entre tantascoisas inesquecíveis, colaborar diretamente para que nós, hoje, possamosdesfrutar deste oásis à beira mar.

Erguido no ano de 1900, o Casarão Branco é ainda um imóvel imponente e que mexecom o imaginário popular. Enquanto prefeita de Santos, entre 1989 e 1992, tivea honra de conduzir a restauração e preparação daquela que passaria a ser asede da Fundação Pinacoteca Benedicto Calixto, que no auge dos seus 25 anos devida desempenha, com muito brilhantismo, o papel de indutora e grande guardiã dacultura santista. Um verdadeiro templo da arte.

Graças a este grupo de abnegados defensoresda arte e do bom gosto, capitaneados pelo presidente Mario Flavio Leme de Paese Alcântara, a Fundação abriga sob suas asas importantes obras da cultura nacional,onde se destacam cerca de 50 exemplares do acervo do lendário BenedictoCalixto, um dos principais artistas plásticos brasileiros de todos os tempos.Benedicto Calixto era itanhaense de nascimento, mas retratou paisagens da nossaSantos como poucos. Eternizou cenas do cotidiano da nossa cidade que encantamgerações há mais de 100 anos.

A criação da Pinacoteca Benedicto Calixto foi fundamental para garantir aresistência do Casarão Branco ao longo de suas mais de 10 décadas, mesmo dianteda intensa especulação imobiliária, nesta que é uma das áreas mais nobres danossa Cidade. O clímax deste processo deu-se durante a minha estada à frente doExecutivo santista, mas ele durou anos e foi fruto de um esforço coletivo.

Em 1979, o então prefeito nomeado Carlos Caldeira Filho obteve a desapropriaçãodo imóvel, o primeiro importante passo da longa caminhada. Mais tarde, em 1986,foi a vez de Oswaldo Justo dar sua contribuição, entrando em acordo com osherdeiros do imóvel, que haviam levado o caso à Justiça. Foi também em 1986 quea Câmara Municipal de Santos aprovou a Lei nº 154, autorizando a Prefeitura acriar a Pinacoteca.

Em 1989, com o início do meu mandato de prefeita, era chegada a minha vez decontribuir. Havia alguns anos as obras estavam paralisadas por falta derecursos. Logo conseguimos retomar os trabalhos e, a partir de então, entregarà população a sonhada Pinacoteca Benedicto Calixto, que passou a ser uma dasminhas metas.

Cabe, aqui, uma confidência: em alguns momentos, diante das enormesdificuldades, temi não conseguir cumprir este objetivo. Além dos obstáculos deordem financeira (numa época em que o orçamento santista era muito maismodesto, se comparado ao atual), não foram poucos os problemas de ordemtécnica.

Isso porque a restauração de um imóvel do porte deste casarão exigia um suportetécnico que, àquela altura, não era fácil encontrar. Por isso, costumo dizer,nas palestras a respeito do pioneirismo da nossa experiência à frente daPrefeitura, que a viabilização da Pinacoteca foi um dos principais marcos da políticade preservação do patrimônio histórico desenvolvida pela Prefeitura de Santos.

Para se ter uma ideia, foi por conta deste trabalho que a Prodesan, empresamunicipal – então dirigida por Alcindo Gonçalves – que cuidou do restauro,capacitou profissionais e criou, por exemplo, o cargo de gesseiro, até entãoinexistente no organograma da Prefeitura. E assim fomos tocando as obras.Recordo que, diariamente, vinha à Pinacoteca, geralmente antes do início doexpediente no Palácio José Bonifácio, não só para acompanhar a evolução eestimular os operários, mas também porque desejava fixar em minha mente cadapasso dessa importante transformação.

Era um grupo de abnegados, profissionais quecompreenderam seu importante papel nesta que foi uma das mais bonitas históriasda preservação da memória e do patrimônio santista. Pessoas que deixaram, aqui,muito mais que seu suor, mas um tanto de sensibilidade e sentimento.

Assim, em 4 de abril de 1992, ano em que concluí minha passagem pelo Executivo,fizemos uma pomposa festa de inauguração. Ao final da cerimônia, desci asescadas, como "uma das noivas Pires", a última família que morou aquino Casarão Branco. Típico desejo de uma santista da gema. Daqueles que só quemnasce, vive e escolhe morrer aqui sabe o que significa.

Hoje quero agradecer especialmente àspessoas que ajudaram a concretizar a restauração desta pinacoteca, desta casaque hoje é o coração da nossa cultura e arte. Obrigada a cada um de vocês. E um especial agradecimento à Fundação, que nos ajuda a manter este imponente símbolode Santos.

Telma de Souza – Deputada estadual, sendo 4ª Secretária, Procuradora Especial da Mulher e vice-líder da bancada do PT na Assembleia Legislativa. É também ex-prefeita de Santos e ex-deputada federal por quatro mandatos

Fonte: Telma de Souza