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ROLEZINHO PEDE MAIS DIÁLOGO

Publicado em 19/02/2014, por Telma de Souza é deputada estadual, pedagoga, advogada e ex-prefeita de Santos.

Ao assumir a Prefeitura de Santos, em 1989, a cidade padecia com a falta de espaços de lazer, sobretudo destinados aos adolescentes. Criar opções de entretenimento e capacitação para este público sempre foi uma de nossas preocupações. Certo dia, no ir e vir da atribulada agenda de prefeita, fui reconhecida, no trânsito, por um grupo de adolescentes. “Prefeita! Telma! Faz uma pista de verdade para a gente!”, gritava um deles, apontando para a Praça Palmares, no Canal 4.
 
Não tive dúvidas: pedi ao motorista que encostasse o carro, desci e fui conversar com os garotos. Fui com eles até a praça, onde haviam construído, com as próprias mãos, rampas de madeira, típicas dos adeptos do skate, numa época em que os esportes radicais ganhavam espaço no Brasil. 
 
Àquela altura, já havíamos implantado o pioneiro Programa ‘Bairros em Ordem’, que consistia em visitas periódicas às comunidades para apresentar cronogramas de obras e ouvir as necessidades de cada canto da cidade. Como geralmente os jovens não participavam desses encontros, o anseio por uma pista de skate, até então, era uma novidade para mim.
 
Marquei uma reunião entre uma comissão de adolescentes e o secretário de Obras, o arquiteto Cláudio Abdala. Assim, apresentamos um projeto aos garotos, com pista, rampas e equipamento convexo próprio para skate. Para nossa surpresa, o desenho foi rejeitado, pois nele faltava um halfpipe . Pedimos, então, que eles próprios complementassem a proposta, que foi devidamente lapidada e aperfeiçoada. 
 
Nascia, meses depois, a pista de skate da Praça Palmares, a primeira e mais tradicional de Santos, até hoje muito frequentada. Não poderia ser diferente, afinal, ela foi projetada com o auxílio dos melhores arquitetos para a ocasião: os próprios usuários.
 
E o que isso tem a ver com a nova vedete dos noticiários no Brasil, o tal rolezinho? Tudo! Nos dois casos, a atitude mais plausível que se espera de uma autoridade é a promoção do diálogo. Foi o que fez o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, mesmo em meio ao fogo cruzado alimentado por argumentos, alguns plausíveis, outros preconceituosos, de setores da nossa sociedade. 
 
Antes de atacar indiscriminadamente, é preciso compreender que o rolezinho é um fenômeno social. E não estou, aqui, a falar dos vândalos que saqueiam lojas e promovem agressões gratuitas nos centros de compras, o que deve receber nosso repúdio total. Falo de grupos como os dos jovens dispostos a passear e se divertir e que acabaram agredidos por policiais militares no Shopping Itaquera, nos primeiros dias do ano. É preciso discernir, com clareza, os dois grupos e suas reais intenções.
 
Os rolezinhos, na verdade, expõem duas situações. A primeira delas é, sim, o preconceito, de classes e, por que não, o racial, na medida em que há argumentos contrários ao dito fenômeno que – seja de forma explícita ou implícita – defendem ser possível identificar os “arruaceiros” pelas vestimentas ou cor da pele. 
 
A segunda situação, que diz respeito diretamente aos gestores públicos, é a falta de áreas de lazer nas regiões periféricas. Ou seja, enquanto os rolezinhos ficaram restritos aos bailes funk, ou mesmo aos chamados bailes “Charme”, debaixo dos viadutos, ninguém se incomodou. Isso ocorreu apenas quando os jovens humildes decidiram dividir os mesmos espaços frequentados por pessoas de maior poder aquisitivo.
 
Qualquer lojista que se preze quer ver seu comércio cheio. Nenhum deles deve esquecer, também, que o perfil da chamada Classe C mudou. O Brasil evoluiu, e as mudanças dos últimos anos permitiram à nova Classe C não só cobiçar, mas conquistar produtos de grife, ainda que pagos em suaves prestações. 
 
Portanto, a palavra-chave é uma só: diálogo. O papel da sociedade, sobretudo dos gestores públicos, é convidar os simpatizantes dos rolezinhos para dialogar. Entender o que pensam, o que querem, o que sentem e de quê se ressentem. Atitude espinhosa, sem dúvida, mas a única verdadeiramente democrática. 

Telma de Souza é deputada estadual, pedagoga, advogada e ex-prefeita de Santos 

Artigo publicado no jornal A Tribuna, em 19/02/2014

Fonte: Telma de Souza é deputada estadual, pedagoga, advogada e ex-prefeita de Santos